Medir savings em viagens corporativas é a tarefa mais política da gestão de viagens. Todo relatório de fim de ano traz um número grande de economia, quase sempre calculado por quem tem interesse em que ele seja grande — a agência, o fornecedor da plataforma, o próprio gestor de viagens. E quase sempre o CFO olha aquele número, compara com a linha de despesa que subiu no orçamento e faz a pergunta que ninguém quer ouvir: “se economizamos R$ 1,2 milhão, por que gastamos mais que no ano passado?”
A resposta costuma ser tecnicamente correta e comercialmente desastrosa. Este artigo trata do que separa um número de economia que sobrevive ao escrutínio de um que evapora na primeira pergunta: a metodologia.
Os dois tipos de savings, e por que misturá-los destrói credibilidade
Existe uma distinção que precisa estar clara antes de qualquer cálculo:
- Economia realizada (hard savings). Dinheiro que sai do orçamento e não volta. Renegociação de acordo que baixa a tarifa média efetivamente paga, redução do número de viagens, troca de categoria de hotel. Aparece na linha de despesa. É verificável no razão contábil.
- Custo evitado (cost avoidance). A diferença entre o que se pagou e o que se teria pago em outro cenário. O viajante escolheu um voo de R$ 900 quando havia outro de R$ 1.400 na mesma janela — evitaram-se R$ 500. É real como comportamento, mas não reduz a despesa: ela ainda cresceu R$ 900.
Os dois são legítimos. O erro é somá-los numa única linha chamada “economia” e apresentá-la a quem controla o orçamento. Custo evitado não paga conta. Quando o relatório mistura os dois, o CFO percebe — e a partir daí passa a desconfiar do número inteiro, inclusive da parte verdadeira.
A recomendação é simples e desconfortável: separe as duas linhas, sempre, e explique a diferença antes de mostrar os valores.
O baseline é toda a discussão
Custo evitado só existe em relação a uma referência. Quem escolhe a referência escolhe o resultado — por isso o baseline precisa ser definido antes do período medido, documentado, e não pode mudar no meio do caminho.
As referências mais usadas no aéreo, com seus vícios:
- Menor tarifa lógica disponível no momento da reserva. É o padrão de mercado. “Lógica” significa dentro de critérios aceitáveis: janela de horário compatível com o compromisso, número razoável de conexões, aeroporto da mesma praça. Bem aplicada, é honesta. Mal aplicada — comparando com um voo às 5h da manhã com duas conexões que ninguém pegaria — vira ficção.
- Tarifa mais alta ofertada na busca. Produz números espetaculares e não tem qualquer validade. Se aparece no relatório do seu fornecedor, questione.
- Tarifa média histórica da rota. Útil para acompanhar tendência, mas contaminada pela inflação do setor. Num ano em que a tarifa média subiu 5%, comparar contra a média do ano anterior transforma alta de preço em economia negativa mesmo com boa gestão.
- Tarifa cheia publicada. Só faz sentido para medir o desconto contratado de um acordo corporativo, nunca como referência de comportamento do viajante.
Em hotelaria a mesma lógica vale, com um cuidado extra: a comparação precisa ser entre a mesma categoria, na mesma cidade e na mesma data. Diária de segunda-feira em São Paulo não se compara com sábado, e hotel próximo ao cliente não se compara com hotel na periferia.
As quatro alavancas que produzem economia de verdade
Vale saber de onde o número deveria vir, porque isso orienta onde investir esforço:
- Preço. Desconto negociado com aéreas e hotéis, tarifa corporativa, condições comerciais. É a alavanca mais visível e a que satura mais rápido — há um piso.
- Comportamento. Antecedência de compra, escolha de tarifa mais barata dentro da janela aceitável, adesão à política. É onde mora a maior parte do custo evitado.
- Volume. Deixar de viajar, agrupar viagens, substituir deslocamento por reunião remota. É a alavanca de maior impacto e a mais difícil politicamente.
- Processo. Reduzir remarcação e no-show, capturar créditos de bilhetes não voados, eliminar reserva duplicada. Pouco glamouroso e frequentemente o dinheiro mais fácil da mesa.
Bilhete não utilizado é o exemplo clássico. Em programas sem controle, uma fatia dos bilhetes emitidos e não voados simplesmente expira sem que ninguém acompanhe. Recuperar isso é economia realizada, verificável e sem nenhum atrito com o viajante — não exige que ninguém mude de comportamento.
Como auditar o próprio número antes que alguém audite por você
Antes de levar o relatório ao comitê, submeta-o a quatro testes:
- Teste da reconciliação. A economia realizada aparece na contabilidade? Se a linha de despesa não caiu e não houve aumento de volume que explique, o número não é hard saving.
- Teste da amostra. Sorteie vinte reservas do período e refaça o cálculo manualmente, olhando a busca original. Se a economia calculada não se sustenta na amostra, não se sustenta no total.
- Teste do voo impossível. Quantas das comparações usam como referência um itinerário que nenhum viajante escolheria? Se for mais que uma fração pequena, o baseline está inflado.
- Teste da fonte independente. O cálculo vem exclusivamente de quem é remunerado pelo resultado? Convém que os dados brutos passem por consolidação própria, apoiada em business intelligence de viagens corporativas, e não apenas pelo relatório do fornecedor.
Como reportar: um formato que sobrevive à reunião
O relatório de economia ganha credibilidade quando abre mão de parecer impressionante. Uma estrutura que funciona:
- Gasto total do período, comparado ao período anterior, em números absolutos. Sem maquiagem. Se subiu, subiu.
- Decomposição da variação: quanto se deve a volume (mais viagens), quanto a preço de mercado (inflação do setor) e quanto a gestão. Essa separação é o coração do relatório — ela mostra que a alta veio de mais gente viajando, não de descontrole.
- Economia realizada, com origem identificada e rastreável na contabilidade.
- Custo evitado, com o baseline declarado explicitamente na mesma página.
- Gasto por viagem e por viajante, que neutralizam o efeito de volume e são as métricas que realmente medem gestão.
Essa decomposição é o que transforma uma conversa defensiva em uma conversa de gestão. Ela deve conversar diretamente com os KPIs de viagens corporativas já acompanhados pela empresa, e não viver num relatório paralelo que ninguém cruza com o orçamento.
Quando o savings vira armadilha
Um alerta que raramente aparece nos manuais: perseguir economia sem contrapartida produz efeitos que aparecem depois, em outras linhas.
Obrigar todo mundo a pegar o voo mais barato significa conexões longas e madrugadas. Isso custa horas produtivas do colaborador, desgasta quem viaja com frequência e, no limite, alimenta rotatividade. Cortar categoria de hotel para uma faixa em que o viajante não dorme bem antes de uma negociação importante economiza R$ 200 na diária e pode custar o contrato.
Por isso o indicador de economia deveria sempre andar acompanhado de pelo menos um indicador de experiência — satisfação do viajante ou tempo total de deslocamento. Economia que só existe porque alguém está sofrendo não é sustentável, e o número do ano seguinte vai mostrar isso. Vale distinguir esse trabalho estrutural das ações táticas de como reduzir custos: aqui não se trata de encontrar novas economias, e sim de provar as que já existem.
Conte com a Aerotur Corporativo
Comprovar savings em viagens corporativas exige três coisas que nem toda empresa tem à mão: dados consolidados de todas as fontes, baseline definido com critério defensável e alguém disposto a apresentar o número real, mesmo quando ele é menor do que o esperado. É esse tipo de transparência que sustenta o programa de viagens no orçamento do ano seguinte.
A Aerotur trabalha com relatórios consolidados por centro de custo, acompanhamento de tarifa média por rota e apoio na construção da metodologia de mensuração junto às áreas de Compras e Controladoria. Se o seu relatório de economia não sobrevive à primeira pergunta do CFO, Fale com a Aerotur e vamos reconstruí-lo em bases que se defendem sozinhas.