Montar o orçamento de viagens corporativas para o ano seguinte é um exercício que quase toda empresa faz mal, e por um motivo específico: o número costuma nascer de uma regra de bolso — “pega o realizado e acrescenta a inflação” — que ignora as três forças que realmente movem essa linha. O resultado aparece em maio, quando o orçamento já estourou e ninguém consegue explicar se o problema foi preço, volume ou descontrole.
Este artigo apresenta um método em cinco etapas para chegar na reunião de aprovação com um número defensável e com a capacidade de responder, ao longo do ano, à pergunta que sempre vem: por que gastamos mais?
Etapa 1: construir o baseline correto
O ponto de partida não é o valor total gasto no ano corrente. É esse valor decomposto em três dimensões:
- Volume — número de viagens e de noites fora, por área e por tipo de viagem.
- Preço unitário — tarifa aérea média por rota, diária média por praça, custo médio de transporte terrestre.
- Mix — proporção entre doméstico e internacional, entre viagem curta e longa, entre áreas.
Essa decomposição é trabalhosa na primeira vez e trivial nas seguintes. Sem ela, é impossível projetar com sentido: uma alta de 12% pode significar 12% mais viagens com preço estável, ou o mesmo número de viagens 12% mais caras. As duas situações exigem decisões opostas.
Um cuidado importante: o baseline deve considerar o ano corrente anualizado, não o encerrado. Se você monta o orçamento em agosto, projete o ano inteiro a partir dos meses já realizados, respeitando a sazonalidade histórica — a maioria das empresas tem concentração de viagens no segundo semestre, e usar dados de janeiro a julho subestima a base.
Etapa 2: projetar o preço com dados externos
Aqui o orçamento sai do achismo. Existem projeções setoriais publicadas anualmente que dão o vetor de preço para o ano seguinte, e vale ancorar a premissa nelas em vez de aplicar um índice geral de inflação.
Para 2027, o Global Business Travel Forecast produzido pela GBTA em parceria com a ALTOUR indica desaceleração na alta de preços: cerca de 1,5% no aéreo global — com aproximadamente 1,1% em econômica e 2,2% em cabines premium — e algo próximo de 1,8% na hotelaria, com diária média global estimada em torno de US$ 171. O mesmo estudo alerta que os preços não devem retornar ao patamar de 2025, por fatores estruturais: atrasos na entrega de aeronaves, exigências de combustível sustentável de aviação, escassez de mão de obra e instabilidade geopolítica.
Duas ressalvas na hora de aplicar esses números ao Brasil. A primeira é que projeção global não captura a dinâmica local — o comportamento do querosene de aviação, o câmbio e a oferta de assentos no mercado doméstico têm peso próprio. A segunda é que o mercado brasileiro vem crescendo acima da média mundial, o que pressiona demanda e, com ela, preço. Convém trabalhar com premissa local um pouco acima da global e explicitar essa escolha na apresentação.
Etapa 3: projetar o volume junto com quem gera a demanda
É a etapa que mais se pula e a que mais explica desvios. Volume de viagens não é decisão da área de viagens — é consequência de decisões comerciais e operacionais tomadas em outros lugares.
Três conversas resolvem a maior parte:
- Com Comercial — quantas praças novas, quantos clientes a mais, qual meta de visitas presenciais.
- Com Operações ou Projetos — quais obras, implantações ou contratos entram e saem, com que necessidade de deslocamento.
- Com RH — quantas contratações em posições que viajam, quais eventos internos previstos, se há convenção ou encontro de equipe no calendário.
Cada uma dessas conversas produz um número de viagens adicionais ou a menos. Documentá-las tem um efeito colateral valioso: quando o orçamento estoura porque Comercial abriu duas praças não previstas, existe registro de que aquilo não estava na premissa.
Etapa 4: montar três cenários
Orçamento de número único é frágil. Três cenários, com premissas explícitas, sustentam a conversa muito melhor:
- Cenário base — volume conforme o planejamento das áreas, preço conforme a projeção setorial ajustada ao Brasil, mix estável. É o número que vai para aprovação.
- Cenário contido — o que acontece se houver necessidade de corte. Aqui vale quantificar as alavancas: qual economia se obtém restringindo cabine premium, elevando a antecedência mínima de compra, substituindo parte das viagens por reunião remota. Ter esse cenário pronto evita corte linear no meio do ano, que é a pior forma de reduzir custo.
- Cenário de expansão — o que a linha exige se a empresa acelerar o plano comercial. Menos usado, mas muito eficaz politicamente: mostra que a área de viagens entende o negócio e não apenas defende orçamento.
Etapa 5: separar o que é obrigatório do que é discricionário
Uma segmentação que muda a natureza da discussão. Nem toda viagem tem o mesmo grau de necessidade:
- Viagem contratual ou regulatória — prevista em contrato com cliente, exigida por norma, necessária para manter operação. Não é cortável sem consequência direta.
- Viagem de geração de receita — visita comercial, negociação, atendimento a cliente. Cortar reduz receita, o que precisa entrar na conta.
- Viagem de suporte interno — reuniões entre áreas, treinamentos, encontros de equipe. É a faixa com maior margem para substituição por formato remoto.
- Viagem de desenvolvimento — congressos, feiras, capacitação. Valor real, mas com maior grau de escolha.
Apresentar o orçamento com essa segmentação transforma “cortar 15% de viagens” em uma decisão informada sobre quais 15%. É também a base para aplicar o framework discutido no artigo sobre conferências virtuais e viagens presenciais.
O que incluir e as pessoas costumam esquecer
Linhas que frequentemente ficam fora do orçamento de viagens e aparecem como surpresa:
- Taxas de serviço da agência e custos de plataforma.
- Seguro viagem, especialmente para operação internacional.
- Vistos, autorizações eletrônicas e documentação.
- Custo de remarcação e cancelamento — uma linha própria, estimada a partir do histórico, em vez de tratada como imprevisto.
- Eventos internos com deslocamento, quando o orçamento do evento fica em outra área e o aéreo cai em viagens.
- Conectividade em viagem internacional.
Como acompanhar depois de aprovado
Orçamento aprovado que só é olhado no fechamento do ano não serve para gestão. O acompanhamento mensal deveria responder três perguntas, sempre nesta ordem: o desvio veio de volume, de preço ou de mix? Qual área o originou? A premissa que o gerou continua válida?
Duas métricas neutralizam o efeito de crescimento e são as que realmente medem gestão: custo médio por viagem e custo por viajante. Se o gasto total subiu 18% mas o custo médio por viagem caiu 3%, a história é de crescimento da empresa, não de descontrole — e essa é uma conversa completamente diferente na reunião de resultados. Essas métricas conversam com o conjunto de KPIs de viagens corporativas já acompanhado e devem ser lidas junto com o histórico de custo médio de viagens corporativas.
Conte com a Aerotur Corporativo
Um orçamento de viagens corporativas bem construído não é o que acerta o número na mosca — é o que permite explicar o desvio quando ele acontece. Isso exige baseline decomposto, premissas escritas e acompanhamento mensal com as métricas certas.
A Aerotur fornece o histórico consolidado que sustenta esse trabalho: tarifa média por rota, diária média por praça, volume por área e evolução do custo por viagem. Fale com a Aerotur e vamos preparar a base de dados do seu orçamento antes da reunião de aprovação.