O mercado de viagens corporativas está em plena transformação, impulsionado por mudanças nas expectativas dos colaboradores e pela busca crescente de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Nesse cenário, o conceito de bleisure — a união entre “business” e “leisure”, ou seja, negócios e lazer em uma mesma viagem — emerge como uma das tendências mais fortes para os próximos anos, conquistando adeptos em todos os níveis do mundo corporativo e moldando novas políticas de gestão de pessoas e viagens.
Cada vez mais, empresas e viajantes descobrem as inúmeras vantagens dessa prática, tanto para a produtividade quanto para o bem-estar dos profissionais.
O que é bleisure e por que está em ascensão
O termo bleisure nasceu da necessidade de tornar as viagens de negócios menos rígidas e mais atraentes aos colaboradores, especialmente para gerações mais jovens e conectadas à busca pelo equilíbrio entre compromissos profissionais e vida pessoal. A proposta é simples: estender uma estadia corporativa para incluir momentos de lazer, como passeios, experiências culturais ou até mesmo o simples descanso em um novo destino, aproveitando a viagem para vivências além do expediente.
A ascensão do trabalho remoto, da flexibilidade nas agendas e da descentralização das políticas de viagens são fatores que facilitam e impulsionam o bleisure. De acordo com a Paytrack, cerca de 44% dos profissionais já recusaram viagens corporativas que não permitiam tempo para lazer. Além disso, 55% dos viajantes consideram que a combinação de trabalho e lazer contribui para um melhor equilíbrio entre suas rotinas pessoal e profissional. Empresas estão percebendo que, além de atrair e reter talentos — especialmente da Geração Z, para quem qualidade de vida é prioridade —, tal flexibilidade eleva o engajamento e a satisfação dos funcionários.
A representatividade do bleisure no mercado global
O mercado global de bleisure vem apresentando um crescimento acelerado. Em 2024, o segmento foi avaliado em cerca de US$ 430 bilhões, um aumento significativo frente aos US$ 394 bilhões de 2023, com previsão de crescimento de 500% até 2033. No Reino Unido, 42% dos viajantes estenderam suas viagens de trabalho para incluir lazer em 2023, enquanto nos Estados Unidos esse percentual chegou a 48%. O dado mais impressionante, porém, é que 84% dos viajantes norte-americanos declararam interesse em adicionar tempo de lazer à sua próxima viagem corporativa.
No contexto brasileiro, a tendência acompanha o movimento global. Relatórios recentes apontam que as empresas no Brasil estão flexibilizando políticas para permitir que colaboradores usufruam de experiências bleisure, conscientes do impacto positivo sobre a produtividade e do potencial de retenção de talentos. Essas transformações refletem uma mudança de mentalidade empresarial, que vai além do simples controle de custos: busca-se, agora, mensurar o retorno sobre investimento (ROI) também pelo engajamento e bem-estar dos colaboradores.
Gráfico: Crescimento do mercado global de bleisure (2023-2024)
| Ano | Mercado de bleisure (US$ bilhões) |
|---|---|
| 2023 | 394 |
| 2024 | 430 |
Fonte: VOLL, 2024.
Benefícios do bleisure para colaboradores e empresas
A incorporação do bleisure nas viagens de trabalho traz uma série de benefícios tanto para os profissionais quanto para as empresas. Para o colaborador, trata-se de uma oportunidade valiosa de explorar novos destinos (47% veem essa como a principal vantagem), fazer conexões, vivenciar experiências diferentes, descontrair e recuperar energias após períodos intensos de reuniões ou eventos. A experiência contribui para o desenvolvimento pessoal, estimula a criatividade e reforça o bem-estar — fatores cada vez mais valorizados no ambiente profissional contemporâneo.
Já para as empresas, oferecer o bleisure funciona como diferencial competitivo na atração e retenção de talentos, além de aumentar o engajamento da equipe e potencializar a satisfação no trabalho. Uma pesquisa mostrou que 78% dos colaboradores que adotam essa prática percebem aumento de produtividade e valorizam mais suas atribuições no trabalho. Outro dado importante é que políticas flexíveis de viagem aumentam a probabilidade de participação dos colaboradores em eventos importantes, ampliando as chances de negócios e networking estratégico.
Não se pode ignorar, ainda, a relação com a sustentabilidade e o uso eficiente de recursos. Bleisure pode ajudar a otimizar despesas de deslocamento e acomodação, desde que bem planejado e integrado às políticas de viagem da empresa, além de reduzir a frequência de deslocamentos de curta duração em favor de viagens mais longas e completas.
Os novos desafios da gestão de viagens corporativas
Com a consolidação do bleisure, a gestão de viagens corporativas vem passando por importantes transformações. As empresas precisam adaptar políticas de viagens, tornando-as mais flexíveis e descentralizadas, sem abrir mão do controle de custos e, principalmente, da governança sobre o uso dos recursos e tempo dos profissionais. Ferramentas digitais completas, que centralizam todas as etapas do processo — das reservas ao reembolso —, ganham protagonismo ao facilitar o monitoramento de gastos, aprovações e análises estratégicas.
A descentralização permite maior autonomia do viajante, mas exige diretrizes claras quanto à separação de despesas corporativas e pessoais, previsão de períodos de lazer e responsabilidades durante a estadia estendida. O uso de dashboards de gestão e relatórios inteligentes contribui para alinhamento de expectativas e para a análise do ROI das viagens. O foco agora é garantir que os objetivos de negócio sejam atingidos, mas sem negligenciar o lado humano da experiência.
Além disso, a sustentabilidade segue como prioridade, influenciando escolhas de fornecedores, rotas e práticas de deslocamento que gerem menos impacto ambiental. Para 47% dos gestores, a responsabilidade socioambiental já é um dos principais critérios nas decisões de viagens corporativas.
O perfil dos viajantes e a cultura do bleisure
A cultura do bleisure é especialmente forte entre jovens profissionais e executivos que valorizam não apenas resultados, mas também experiências significativas e bem-estar. Segundo a VOLL, cerca de 70% dos viajantes corporativos apontam como principal benefício do bleisure o tempo extra para explorar novos destinos. Outras vantagens mencionadas são a oportunidade de networking informal (58%), mudança no ambiente de trabalho (57%) e novas vivências culturais (55%).
Esse comportamento tem sido observado em diferentes países e continentes, indicando uma tendência global e não apenas regional. Na Europa, por exemplo, mais da metade dos viajantes de negócios já demonstrou interesse em prolongar estadias para lazer, e 69% das empresas já permitem a prática, com outros 19% planejando adotá-la em breve. Além disso, parte das corporações já cobre custos adicionais, como diárias extras ou flexibilidade em check-in e check-out, para facilitar a incorporação do lazer nas viagens.
Bleisure, engajamento e qualidade de vida: um caminho sem volta
Ao contrário do que se poderia imaginar, unir negócios e lazer não representa prejuízo à produtividade — muito pelo contrário, estudos vêm mostrando ganhos consistentes no engajamento, motivação e nos resultados gerados nas viagens a trabalho. A integração entre “dever” e “prazer” é percebida por muitos viajantes como um facilitador do equilíbrio emocional, da resiliência e da criatividade. Tal tendência não apenas contribui para a construção de um ambiente mais favorável ao desenvolvimento das equipes, como pode ser decisiva para o sucesso em negociações, aprendizado em eventos e para o fortalecimento dos vínculos entre colaboradores e empresas.
No cenário pós-pandemia, no qual saúde mental, flexibilidade e qualidade de vida se tornaram temas centrais, o bleisure surge como resposta às demandas por jornadas de trabalho menos exaustivas e mais conectadas à realização plena dos profissionais. Empresas que reconhecem e apoiam esse movimento não apenas se destacam como empregadoras do futuro, mas também impulsionam a inovação, a retenção de talentos e a construção de uma cultura organizacional mais aberta e adaptável aos novos tempos.
Conclusão
Em um mercado de viagens corporativas cada vez mais competitivo, o bleisure surge como estratégia indispensável para alinhar produtividade, satisfação e bem-estar. Ao valorizar a experiência do colaborador e fomentar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, empresas e gestores conquistam equipes mais motivadas e resultados de longo prazo. É hora de repensar as políticas, aproximar-se das novas necessidades dos profissionais e promover um ambiente de trabalho verdadeiramente inovador e acolhedor.